Renan Santos
Entrevista completa — Arena Oeste · Revista Oeste
“O futuro é glorioso. O Brasil tem tudo para ser uma das cinco maiores nações do mundo.”
Perfil
Quem é Renan Santos
Paulistano criado no bairro da Mooca, filho de advogado e psicóloga. Ingressou no curso de Direito da USP, onde atuou ativamente na política estudantil, mas abandonou a graduação para mergulhar na política. Em 2014, fundou o Movimento Brasil Livre (MBL), liderando os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff. Em novembro de 2025, após coletar mais de 547 mil assinaturas validadas, fundou o Partido Missão — a 30ª legenda do Brasil. Anunciou sua pré-candidatura à Presidência da República para 2026 e se apresenta como “o candidato da direita”.
10 eixos da entrevista
Temas da entrevista
A Revolução Política Proposta
O Brasil não precisa de uma revolução no sentido clássico, mas de uma reforma muito profunda na sua forma de fazer política. O diagnóstico central: grupos patrimonialistas capturam o Estado, exploram suas próprias populações e mantêm o país num ciclo de corrupção e subdesenvolvimento. O adversário não é ideológico, é estrutural. Renan cita autores como Raimundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda e provoca: os homens que controlam o Senado, a Câmara e o STF vêm de estados historicamente inviáveis economicamente, que dependem de explorar os recursos dos estados produtivos.
Terceira Via: Uma Recusa
Renan rejeita categoricamente a ideia de terceira via. Esse discurso, segundo ele, é vago, críptico e apela apenas a uma classe média urbanizada com afetação. Em grande parte do Brasil não existe democracia funcional — é o buraco na rua, a dependência do emprego público. O eleitor real não se identifica com esse discurso. A eleição precisa ser travada em torno de temas concretos e materiais. Sua candidatura é da direita — não é meio-termo.
STF e Crise Institucional
Um dos temas mais aprofundados. Renan defende que o STF deixou de ser um tribunal e se tornou um ator político autônomo, praticando o “direito penal do inimigo” contra adversários políticos — com direitos de defesa mitigados, inquéritos abertos pela própria corte e concentração de poder sem precedentes. O Brasil vive um “limbo institucional” desde 2019. O próximo presidente precisará recolocar o STF dentro de sua caixa constitucional. Se eleito, Renan afirma que não cumprirá decisões do STF que considere ilegais, usando a metáfora de Ayrton Senna: se posicionar de forma que o adversário precise recuar ou se chocar.
O Dia 8 de Janeiro e Bolsonaro
Renan separa os eventos do 8 de janeiro dos atos do governo Bolsonaro em 2022. Os manifestantes que invadiram e depredaram prédios cometeram crimes e merecem punição — mas não as penas excessivas que receberam. O maior problema é que o evento foi instrumentalizado politicamente para criminalizar toda a oposição. Sobre Bolsonaro, é duro: nunca foi um bom líder, abandonou seus apoiadores enquanto estava “na Disney com o Pateta e o Mickey” e não deu o comando para que as pessoas saíssem dos acampamentos quando era hora.
Livro Amarelo e Evolução Ideológica
A transição do MBL de um movimento liberal-libertário de matriz americana para uma direita essencialmente brasileira, nacionalista e soberanista. O Livro Amarelo documenta essa evolução. A virada começou quando Renan percebeu, na prática de mandatos e conversas com prefeitos, que teorias importadas não funcionavam para problemas brasileiros concretos. O voucher escolar funciona no mercado americano — não num território dominado pelo tráfico onde nenhuma escola privada quer se instalar.
Economia: O Que Ninguém Tem Coragem de Dizer
A dívida brasileira está estourando e os demais candidatos não têm coragem de falar sobre o que precisa ser feito. Renan propõe uma reforma fiscal que abra cerca de R$ 3 trilhões em dez anos, incluindo a desindexação das aposentadorias e do BPC ao salário mínimo e o fim de renúncias fiscais de vários setores, incluindo a Zona Franca de Manaus. Critica a reforma tributária aprovada como “manca e ruim”, deturpada por pressões setoriais. Equipara Paulo Guedes e Fernando Haddad em resultados práticos: nenhum entregou as reformas estruturais necessárias.
Fim da Escala 6x1: Uma Picaretagem
Critica duramente o projeto do PT sobre a jornada de trabalho. A medida empurrará trabalhadores para a informalidade, destruirá empregos na indústria e prejudicará exatamente os trabalhadores mais vulneráveis, que dependem de vínculo formal. Critica a direita por não ter estudado o tema e por ter perdido o debate por despreparo. “A mãe que trabalha no Vale do Ribeira paga ICMS que vai sustentar a greve de um aluno que faz campeonato de pebolim na USP.”
Segurança Pública e Crime Organizado
Defende a aplicação do direito penal do inimigo para facções criminosas — tratamento legal diferenciado para organizações que controlam territórios e agem em série. Propõe o uso de estado de defesa circunscrito a regiões dominadas pelo tráfico, como a Rocinha e regiões do Ceará, para viabilizar operações policiais hoje bloqueadas pelo STF. Propõe ainda um Estatuto da Desfavelização, criminalizando invasões de áreas públicas e privadas para formação de favelas.
Soberania Nacional e Capacidade Nuclear
O Brasil é uma das poucas grandes potências mundiais sem capacidade nuclear. Todos os outros grandes blocos geopolíticos — EUA, Rússia, China, Índia, União Europeia — têm esse poder. Soberania real, em última instância, é poder bélico. Um país com o território, os recursos naturais, a água, os minerais e a produção agrícola do Brasil precisa de poder de dissuasão real. O assunto virou tabu depois que o Dr. Enéas foi ridicularizado — mas precisa voltar ao debate.
Polarização e o Eleitor Brasileiro
A polarização está ganhando contornos quase étnicos, construída ao longo dos anos 2000 com raízes no discurso do “Brasil do loiro de olhos azuis”. O eleitor do Lula no Nordeste não é um extremista de esquerda — é, em geral, uma mulher católica e conservadora que vota no PT por gratidão ao assistencialismo. O caminho de saída da polarização passa por propostas concretas que falem dos problemas reais das pessoas — não pelo discurso abstrato de democracia.
Perguntas e respostas